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Tiago Franz

Uma das primeiras dúvidas dos iniciantes na gaita, ávidos por tocar blues, é a tonalidade. No blues, o tom da gaita não é o mesmo que o da música. Se você ainda não aprendeu a encontrar a tonalidade das gaitas diatônicas no blues, assista a este trecho de uma aula com Brás na gaita e Samuca no acompanhamento com violão. A explicação é muito simples. Você só precisa conhecer o “abc” da música.
Ironicamente, o vídeo é a abertura do programa “Casa do Músico” da Rede Canção Nova, administrada pela Igreja Católica. Que fique bem claro que este blog continua do maL, com L mesmo. O que está acontecendo é que o diabo está dominando até mesmo a mídia da oposição. Vida longa ao Blues! E boa aula.

Início do século XX; Mississipi; plantações; um jovem negro; um violão; uma gaita. Robert Johnson quis ser artista e pegou a estrada aos 16 anos, deixando para trás a vida na lavoura.
Um músico do submundo. Entre prostíbulos e inferninhos, o homem construiu o mito. The King of the Delta Blues Singers, era como o chamavam outros músicos da época (década de 30), devido a sua imensa habilidade.
Foi aí que o diabo entrou pra valer na história do blues. Um músico tão excepcional como Johnson, para o imaginário dos impressionáveis, só poderia ter feito um pacto com o cão. Desde o período barroco, alguns estudiosos europeus, ao entrar em contato com música indígena e africana, já haviam comentado que o diabo era um excelente músico. Na época a Igreja Católica condenava e satanizava a música dessas etnias. Mas nada foi tão difundido como a lenda de Robert Johnson e a encruzilhada, que virou até filme: Crossroads (A Encruzilhada, na versão em português), 1986.
Nasceu em 1911 e morreu aos 27 anos. Idade bastante sugestiva a partir dos anos 60, pois alguns ídolos do rock – ritmo que foi fortemente influenciado por Robert Johnson – tornaram-se mitos ao morrer com a mesma idade. Como Johnson, tiveram vidas intensas, problemas com entorpecentes, muita música, um final misterioso, e uma inicial em comum: o J. Jim Morrison, Janis Joplin, e Jimi Hendrix: uma parte do legado do mito do Rei do Delta.
Leia mais sobre a vida e carreira de Robert Johnson no Whiplash.
Vai aí uma dica para os iniciantes que pretendem estudar um pouco da teoria e técnicas da gaita de boca. O Harmônica Steps é um site voltado para o instrumento, que ensina em passos (steps, em inglês) acessíveis tudo e mais um pouco que um músico minimamente interessado precisa conhecer sobre o seu instrumento.
Há conteúdo específico para gaita diatônica (blues e MPB) e para gaita cromática (MPB e jazz). No tópico sobre blues (que é o que mais interessa ao Gaita Negra), além de teoria, o Harmônica Steps faz um resgate histórico dos principais movimentos ligados ao gênero e traz algumas tablaturas e partituras para praticar.
O site ainda está em desenvolvimento mas já tem transcritos o material sobre a gaita diatônica para blues, e promete completar em breve o restante do conteúdo. Quem assina é “M.”.
Para abrir O Gaita Negra, lá vai uma produção deste que vos escreve. É um curta de animação, com gaita e blues… tudo a ver com o blog!!! A trilha do vídeo é original, minha e de meu irmão Ismael Franz, que também fez a direção de arte do vídeo. Das harmônicas que utilizei, nenhuma é a Gaita Negra, porque o blues não é em F#, e a minha Black Blues é em B (sim, só tenho uma black por enquanto). E também porque o blues da trilha, inspirado nos clássicos do Delta Sul Norte-americano, estilo Robert Johnson, um negro, um violão e uma fogueira (e o diabo na encruzilhada, é claro), era um blues menor, o que exige bastante de um gaitista principiante e folgado como eu.
Eis o argumento do curta:
Notas profundas ecoam entre os prédios na madrugada silenciosa. É o blues chorado ao violão por um homem solitário. A rotina do trabalho mecânico o atormenta. Durante o dia mergulha em preocupações. Tudo nas pessoas lhe é estranho. Precisa dizer algo a alguém, e quando encontra esse alguém, não o vê, mas o ouve. Utilizam a mesma linguagem: a música. O mesmo lamento: o blues. Do meio dos prédios e ruas que dormem, o som de uma gaita de boca se faz ouvir distante. Violão e gaita improvisam arranjos como num diálogo. Existe harmonia. Existe comunicação. Existe vida semelhante a do homem solitário na “cidade máquina”.
blues; isolamento; cidade; rotina; comunicação.